
Cascais durante a Segunda Guerra Mundial: história ao longo do passeio de bicicleta
Durante a Segunda Guerra Mundial (1939–1945), Cascais viveu um dos períodos mais singulares da sua história. Enquanto grande parte da Europa estava em guerra, Portugal manteve-se neutral, sob o regime de António de Oliveira Salazar. Essa neutralidade transformou Cascais num refúgio seguro para aristocratas, diplomatas e famílias reais exiladas, longe do conflito, mas no centro da diplomacia internacional.
Hoje, ao longo do nosso passeio de bicicleta entre Sintra e Cascais (link), atravessamos muitos dos locais que estiveram diretamente ligados a esse período histórico.
Um refúgio de reis, diplomatas e aristocratas
Durante a guerra, Cascais tornou-se residência temporária de várias figuras da elite europeia, incluindo:
- O Rei Umberto II de Itália
- O Rei Carol II da Roménia
- Membros das casas reais de Espanha, Hungria e Bulgária
A região oferecia segurança, discrição e proximidade a Lisboa, um dos principais pontos de saída da Europa durante o conflito. Muitas destas famílias instalaram-se em vivendas, palacetes e grandes propriedades ao longo da costa.
Do Guincho à Quinta da Marinha: privacidade e segurança

O passeio de bicicleta entra em Cascais pela zona do Guincho, uma das praias mais emblemáticas da região. Durante a Segunda Guerra Mundial, esta área mais afastada do centro urbano garantia tranquilidade e isolamento, fatores essenciais para quem procurava refúgio.
Aqui localiza-se a Quinta da Marinha, marcada por grandes propriedades e residências elegantes. Foi neste tipo de espaços que viveram aristocratas e diplomatas, protegidos da exposição pública, mas estrategicamente próximos das rotas marítimas do Atlântico.
Espionagem e diplomacia: o papel do Estoril

Muito perto do percurso encontra-se o Estoril, que durante a guerra se tornou um dos principais centros de espionagem europeia fora das zonas de conflito. O Casino do Estoril funcionava como ponto de encontro informal para agentes aliados e do Eixo, aproveitando a neutralidade portuguesa.
Cafés, hotéis e o casino eram locais de observação, troca de informações e negociações discretas — um ambiente que viria mais tarde a inspirar o universo de James Bond.
A marginal e a Vila Itália: a presença da realeza

Seguindo pela marginal, o passeio passa pela Vila Itália, antiga residência do Rei Umberto II de Itália, símbolo maior da presença das casas reais exiladas em Cascais. Esta zona concentra algumas das histórias mais marcantes do exílio europeu durante e após a guerra.
Pedalar por aqui é percorrer ruas onde, nos anos 40, se cruzavam diplomatas, nobres e figuras políticas internacionais.
Farol de Santa Marta e Baía de Cascais

O percurso continua até ao Farol de Santa Marta, uma oferta do Rei D. Carlos I, símbolo da ligação histórica de Cascais ao mar e à navegação. A antiga fortaleza junto ao farol recorda a importância estratégica da costa portuguesa.
Chegamos depois à Baía de Cascais, o coração da vila. Durante a Segunda Guerra Mundial, esta zona esteve ligada às despedidas e às partidas de muitos refugiados que seguiam viagem a partir de Lisboa para as Américas.

O comboio de Cascais: ligação a Lisboa
O passeio termina junto à linha de comboio de Cascais, inaugurada em 1889, que ligou definitivamente Cascais a Lisboa. Durante a guerra, esta ligação ferroviária foi essencial para o movimento discreto de diplomatas, exilados e refugiados, reforçando o papel de Cascais como ponto estratégico num continente em conflito.